LAGO E SANTUÁRIO
Lago Ashi, Santuário de Hakone e o Torii à Beira do Lago
O portão vermelho erguido sobre a água é a imagem de assinatura de Hakone. Por trás dele, escondem-se um vulcão submerso, um santuário com 1.200 anos e a antiga estrada para Edo.
Check dates and availability ↗Um lago onde antes existia um vulcão
O Lago Ashi — Ashinoko — é o centro sereno de Hakone, e é o túmulo de um vulcão. Quando o Monte Hakone entrou em erupção violenta há cerca de três mil anos, rebentou e colapsou a cratera, e o lago longo e estreito que hoje preenche o fundo da caldeira é a água que se acumulou na depressão deixada para trás. Essa origem explica a sua forma e a sua quietude: é profundo, fresco e cercado por cristas florestadas, com as fumarolas de enxofre de Ōwakudani a fumegar no rebordo acima, como lembrete de que a montanha apenas descansa. Numa manhã clara e calma, a superfície transforma-se em espelho e reflete o céu, e o Fuji — quando se mostra — ergue-se refletido na margem oposta. É belo de uma forma serena e elementar, e perceber que se está a olhar para um vulcão submerso, e não para um lago de montanha comum, muda a forma como o vemos.
Atravessar num navio pirata
A forma mais popular de ir para a água é a bordo dos barcos de passeio, vários dos quais são construídos como galeões de brincar extravagantes — dourados, com vários conveses e alegremente pouco sérios, um sucesso entre as crianças e discretamente apreciados por todos os outros. Atravessam entre Tōgendai, perto do sopé do teleférico, e os cais de Hakone-machi e Moto-Hakone, na margem sul, demorando entre 25 e 40 minutos consoante o percurso. O passeio é a recompensa tranquila no fim das subidas do circuito, e a partir dos conveses abertos tem-se os melhores ângulos do lago: o torii erguido nos baixios, as cristas escuras de cedros e, num dia de sol, o Fuji ao longo de toda a extensão da água. Os barcos estão incluídos no Hakone Free Pass e, para muitos visitantes, a travessia é um ponto alto por si só, e não apenas um meio de chegar ao santuário.
O Santuário de Hakone, mais antigo que o posto de controlo
Na arborizada margem sul, acessível por uma longa avenida de cedros centenários e por uma subida de degraus de pedra, ergue-se o Santuário de Hakone — um dos locais mais antigos e atmosféricos da região. A tradição remonta a sua fundação ao ano de 757, e os edifícios atuais a uma reconstrução de 1667, embora a sensação de antiguidade esteja por todo o lado no musgo, nas árvores altas e no caminho ladeado por lanternas. Há muito que atrai os poderosos: Minamoto no Yoritomo aqui se refugiou após uma derrota no século XII e tornou-se patrono quando ascendeu a xógum, e Tokugawa Ieyasu mandou reconstruí-lo após a Batalha de Odawara em 1590. Os viajantes da antiga estrada Tōkaidō paravam para rezar por uma passagem segura pelo desfiladeiro, e o santuário ainda irradia esse papel — um lugar de proteção no limiar das montanhas, discretamente movimentado com visitantes que hoje procuram o mesmo.
O torii erguendo-se na água
A imagem que define Hakone é o portão vermelhão que se ergue diretamente do lago: o Heiwa no Torii, o Torii da Paz. Foi construído na margem em 1952 para assinalar o Tratado de Paz de São Francisco e o fim da ocupação aliada do Japão, e em 1964 foi acrescentada uma placa com o caractere da paz, cuja caligrafia é da autoria de Yoshida Shigeru, o primeiro-ministro que assinara o tratado. Funciona como um portal simbólico para o Santuário de Hakone, abordado a partir da água, e o seu reflexo num lago sereno — com a caldeira e, se tiver sorte, o Fuji ao fundo — é a cena mais fotografada de toda a região. Espere uma fila no pequeno cais para a fotografia; ela avança, e a espera faz parte da experiência. De manhã cedo, a água está mais calma e a luz mais suave.
O dragão de nove cabeças do lago
O Lago Ashi tem uma lenda, e vale a pena conhecê-la antes de visitar. A história conta sobre um temível dragão de nove cabeças que outrora aterrorizava a região, até que um monge o subjugou e reformou; a criatura tornou-se uma divindade protetora das águas, sendo venerada como Kuzuryū, o Dragão de Nove Cabeças. Há um santuário Kuzuryū na margem do lago — o original, acessível mais facilmente de barco ou a pé pela floresta — e um santuário aliado dentro do recinto do Santuário Hakone, onde os visitantes retiram água de nove bicas em forma de cabeça de dragão. O dragão está associado a bênçãos no amor e nos relacionamentos, o que tornou estes santuários discretamente populares, e uma cerimónia mensal de oferenda de água ainda se realiza no lago. É um bom exemplo de como Hakone sobrepõe mito à geologia: a mesma água que preenche um vulcão extinto é também, na narrativa mais antiga, o lar de um dragão domado.
O antigo posto de controlo e a estrada de cedros
Entre os dois cais do sul fica o coração histórico da margem do lago. Como a estrada Tōkaidō entre Edo e Quioto tinha de subir o Passo de Hakone, o xogunato Tokugawa instalou aqui um posto de controlo — o Hakone Sekisho — em 1619, para vigiar quem circulava entre as duas cidades, inspecionando os viajantes e atento sobretudo a armas que entrassem em Edo e a mulheres que dela saíssem, até o sistema ser abolido em 1869. O local foi escavado e uma reconstrução fiel sobre as fundações originais abriu em 2007, com casas de guarda, uma torre de vigia e exposições que se percorrem no interior. Nas proximidades, um troço preservado da antiga Tōkaidō corre sob uma magnífica alameda de cedros plantados para dar sombra na mesma época. Em conjunto, permitem-lhe pisar a estrada real por onde passou todo o viajante entre a capital do xogum e a do imperador — uma peça rara e tangível do Japão do período Edo, a poucos minutos a pé do torii.